INFERTILIDADE PARA O UROLOGISTA GERAL
TERCEIRA PARTE: EXAMES COMPLEMENTARES

Jorge Haddad Filho
Agnaldo Cedenho

ESPERMOGRAMA

Exame de rotina na pesquisa de todos os casos de infertilidade conjugal. O sêmen é colhido por masturbação, após um período de abstinência sexual de 3 a 5 dias. Devido às variações que ocorrem principalmente na emissão do sêmen, as conclusões devem ser baseadas em um mínimo de duas amostras. O espermograma não permite conclusão direta sobre a fertilidade do paciente, que depende de características do espermatozóide não identificáveis por meio desse exame. Entretanto, evidencia o potencial de reprodução do indivíduo, levando-se em conta os seguintes parâmetros:

  1. volume do sêmen: a maior parte do volume seminal é constituida por secreções das vesículas seminais (cerca de 60%) e da próstata (cerca de 30%). Os espermatozóides e as secreções do epidídimo respondem por aproximadamente 5% deste volume. O aumento de volume (hiperespermia) está associado em geral a processos inflamatórios da próstata e vesículas seminais. Sua redução (hipospermia) pode indicar agenesia/hipoplasia de vesículas seminais, obstrução dos dutos ejaculatórios ou ejaculação retrógrada. Considera-se normal o volume maior ou igual a 2 mL.
     
  2. coagulação e liquefação do sêmen: após a ejaculação, o sêmen coagula devido às enzimas secretadas pelas vesículas seminais: a falta de coagulação pode significar defeito nestas glândulas. A liquefação deve ocorrer no máximo até 60 minutos após a ejaculação e depende de enzimas secretadas pela próstata.
     
  3. cor do sêmen: normalmente branco-acinzentada, pode se tornar avermelhada por processos inflamatórios ou hemorrágicos (hemospermia) ou amarelada nos processos infecciosos (piospermia).
     
  4. concentração: é a medida do número de espermatozóides por ml de sêmen produzido, refletindo a capacidade produtora dos testículos. Normalmente se situa acima de 20 milhões por mL. Oligozoospermia significa a redução da concentração de espermatozóides no sêmen; azoospermia é a sua ausência completa.
     
  5. contagem total: representa o total de espermatozóides no ejaculado. Este parâmetro é muito útil para efeito de manipulação do sêmen em processos de reprodução assistida quando, apesar de uma baixa concentração, verifica-se uma contagem alta devido ao volume final produzido.
     
  6. motilidade: é uma medida da capacidade de movimentação autógena do espermatozóide, refletindo assim parte de sua fisiologia a nível celular. Para efeito do processo reprodutivo, a motilidade é classificada em:
    • progressiva: aquela que se processa com deslocamento da célula. Os espermatozóides progressivos podem ser ainda ser classificados em lentos (se sua velocidade for menor que 25 µm por segundo) e rápidos (se tiverem velocidade maior que 25 µm por segundo). Os espermatozóides progressivos são os mais importantes para o processo reprodutivo, e devem constituir mais de 50% da amostra em indivíduos normais. Astenozoospermia é a redução deste porcentual.
    • não progressiva: neste caso, os espermatozóides exibem movimentos sem deslocamento, refletindo por vêzes aspectos imunológicos que impedem o seu funcionamento normal.
  1. vitalidade: espermatozóides imóveis na amostra podem ser vivos ou mortos. Através de coloração vital, podemos distinguir um do outro. A vitalidade mede a porcentagem dos espermatozóides imóveis vivos, e deve ser maior ou igual a 75% no indivíduo normal.
     
  2. células redondas: glóbulos brancos, células jovens do epitélio germinativo e células de descamação das glândulas sexuais acessórias são observadas frequentemente durante o exame microscópico do sêmen. Mediante coloração específica, é possível a distinção entre esses grupos de células. Quando o número de leucócitos encontra-se acima de um milhão por mL de sêmen, pode indicar processo inflamatório/infeccioso (piospermia) e o aumento de células jovens pode ser observado frequentemente na varicocele. Considera-se que o encontro de um número de células jovens menor que 5 milhões por mL de sêmen seja considerado normal.
     
  3. morfologia: os espermatozóides ovais, sem defeitos no segmento cefálico, peça intermediária ou cauda são os mais capazes de fertilização no processo natural. Existem dois critérios para a avaliação deste parâmetro: num dêles, de responsabilidade da Organização Mundial de Saúde, considera-se o indivíduo normal como tendo mais de 30% de espermatozóides ovais. No outro, chamado critério restrito, o indivíduo normal apresenta mais de 14% de ovais. Este último critério, embora seja mais trabalhoso e exija um maior treinamento laboratorial por parte do observador, parece apresentar maior efetividade para análise em relação ao processo de reprodução. As alterações da morfologia são referidas como teratozoospermia.
     
  4. bioquímica do sêmen: o pH do sêmen deve se situar entre 7,2 e 7,8. Um valor alto aponta para processo inflamatório de glândulas acessórias. A frutose, secretada pelas vesículas seminais, deve ter uma concentração maior que 13 µmol por ejaculado. Valores menores sugerem doença obstrutiva à jusante das glândulas seminais ou sequelas de processos inflamatórios com atrofia total ou parcial das vesículas. O zinco é armazenado pela próstata e tem função bactericida; sua dosagem no sêmen reflete indiretamente a condição prostática.

DOSAGENS HORMONAIS

Também faz parte da pesquisa básica do casal infértil a dosagem de determinados hormônios no homem. Estes hormônios interferem no processo reprodutivo conforme se viu na primeira parte, e devem ser medidos a partir de um pool de três amostras colhidas a intervalos entre 15 e 20 minutos, em virtude da secreção episódica que possuem. São habitualmente medidos no plasma os seguintes hormônios:

  1. gonadotrofinas: o encontro de valores altos de FSH sugere insuficiência testicular primária. Valores maiores que 3 vezes o normal, geralmente estão associados a processos testiculares irreversíveis. Síndromes genéticas frequentemente produzem elevação das gonadotrofinas, como a síndrome de Klinefelter. Por outro lado, quando LH e FSH são baixos, estamos na presença de um hipogonadotrofismo, dos quais a síndrome de Kallmann é um exemplo
    .
  2. testosterona: se tiver concentração baixa no plasma, isto pode ocorrer por defeito primário ou secundário no testículo. No primeiro caso, em geral as gonadotrofinas tem valor alto e trata-se de hipogonadismo hipergonadotrófico. No segundo caso, as gonadotrofinas são baixas: é o hipogonadismo hipogonadotrófico.

Quando surgem sintomas como perda da libido e impotência, é necessária a dosasem da prolactina. Na hiperprolactinemia ocorre ação inibidora sôbre o GnRH, acarretando redução de gonadotrofinas circulantes e consequente hipogonadismo hipogonadotrófico.


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Volume 2 - 4ª Edição, Julho-Setembro, 1998
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