Câncer da próstata: uma opinião médica

    Miguel Srougi*

*50 anos, professor titular de Urologia da Escola Paulista de Medicina - UNIFESP, São Paulo e pós-graduado em Urologia pela Universidade de Harvard,EUA.

A procura da verdade é difícil e é fácil, já que ninguém poderá desvendá-la por completo ou ignorá-la inteiramente. Contudo, cada um de nós poderá acrescentar um pouco do nosso conhecimento sobre a natureza e, disto, uma certa grandeza emergirá.

(Aristóteles, 350 AC)

A frequência do câncer da próstata aumentou de forma explosiva nos últimos anos, consternando a ciência médica e os homens em geral. Notícias e reportagens inundaram os meios de comunicação, com duas consequências imediatas: os homens estão mais conscientes dos problemas da próstata, o que é bom, mas informações desencontradas têm gerado aflições indevidas, o que é ruim. Mesmo levando em conta os riscos de se discutir publicamente um tema com muitas controvérsias técnicas ainda não resolvidas, julguei oportuno me expressar sobre o assunto. Com a esperança íntima de ver emergir uma certa grandeza.

A próstata, glândula de dimensões diminutas localizada na base da bexiga, pode ser sede de dois processos distintos. O primeiro é o crescimento benigno, chamado de hiperplasia, que acomete quase 90% dos homens após os 40 anos e que produz dificuldade para a eliminação da urina. O segundo é o câncer da próstata, que surge associado ou não ao crescimento benigno e que se manifesta quase sempre depois que os homens completam 50 anos.

Frequência

Se estatísticas produzidas agora em janeiro pela American Cancer Society, dos Estados Unidos, forem válidas para o nosso país, em 1997 cerca de 228.000 brasileiros serão atingidos pelo câncer da próstata e 28.500 morrerão em decorrência. Ainda, segundo a mesma instituição, 19,8% dos homens que, atualmente, tem mais de 50 anos, desenvolverão este câncer se forem acompanhados até o fim da vida. Contrapondo-se a estas estimativas incômodas, vale lembrar que entre 70% e 98% dos pacientes são hoje curados da doença, quando a mesma é descoberta a tempo, alojada dentro da glândula.

O câncer da próstata apresenta duas características bem peculiares. A sua incidência aumenta com a idade, atingindo quase 50% dos indivíduos com 80 anos; este tumor, provavelmente, não poupará nenhum homem que viver até 100 anos (tabela). Além disto, o câncer da próstata é encontrado em um número elevado de indivíduos, sem lhes causar qualquer mal. Por exemplo, se examinarmos a próstata de homens com idade entre 60 e 70 anos e que faleceram sem doença prostática aparente, encontraremos focos cancerosos em 24% deles. Contudo, apenas 11% dos indivíduos desta faixa etária apresentam, em vida, problemas com o câncer da próstata. Em outras palavras, 13% dos tumores neste grupo tem um caráter indolente, não se manifestam clinicamente e os seus portadores morrem, por outros motivos, com o câncer mas não pelo câncer.

Um fenômeno de grande relevância foi recentemente registrado por pesquisadores de Salt Lake, no estado de Utah e confirmado, agora, em Connecticut e Novo México, nos Estados Unidos: a incidência do câncer da próstata talvez esteja começando a declinar. Entre 1988 e 1992 o número de novos casos aumentou de 60% e à partir de 1993 diminuiu de quase 20%. Esta notícia auspiciosa tem uma explicação aceitável. As campanhas preventivas e os novos exames de laboratório identificaram um grande número de doentes, incluíndo homens sem sintomas e que ignoravam o mal. Com o esgotamento deste "reservatório" de casos inaparentes, a frequência da doença passou a cair.

Causas

Todo homem nasce programado para ter câncer da próstata, pois todos carregam em seu código genético os chamados "proto-oncogens", que dão a ordem para uma célula normal se transformar em outra maligna. Isto só não ocorre indiscriminadamente porque a função dos proto-oncogens é antagonizada por outro grupo de gens protetores, chamados de "supressores", dos quais os mais conhecidos são o p53 e o p21. Estes gens promovem o suicídio das células toda vez que elas sofrem um processo de degeneração maligna, num fenômeno conhecido como apoptose. O câncer da próstata surge porque as múltiplas divisões celulares, que ocorrem em todos os seres vivos, acompanham-se de discreta fragmentação dos cromossomos, que vão se privando de parte do seu material genético. Com o decorrer dos anos acumulam-se perdas dos gens supressores, que libera a atividade dos proto-oncogens e permite a degeneração das células prostáticas.

Em Novembro de 1996 um grupo de pesquisadores do National Center for Human Genome Research, em Bethesda e da Universidade de Umea, na Suécia, divulgou uma das mais promissoras descobertas na área do câncer da próstata. Estudando 66 famílias com alta prevalência da doença, estes pesquisadores identificaram no braço longo do cromossomo 1 o local onde, provavelmente, se aloja o principal proto-oncogem causador do câncer da próstata, que foi denominado HPC1 ("hereditary prostate cancer 1"). As implicações desta descoberta são imensuráveis. Por exemplo, ela permitirá, em futuro próximo, que um simples teste laboratorial de análise de DNA identifique os indivíduos propensos a ter câncer na próstata. A médio prazo, é possível que os médicos possam intervir sobre este gem, neutralizando-o e impedindo a degeneração maligna das células prostáticas.

Fatores de risco

Homens com antecedentes familiares de câncer da próstata tem maior chance de desenvolver a doença. Os riscos aumentam de 2,2 vezes quando um parente de 1° grau (pai ou irmão) é acometido pelo problema, de 4,9 vezes quando dois parentes de 1° grau são portadores do tumor e de 10,9 vezes quando três parentes de 1° grau têm a doença. Nos casos hereditários, o câncer se manifesta mais precocemente, muitas vezes antes dos 50 anos. Por isto, os homens com história familiar devem realizar exames preventivos a partir dos 40 anos e não dos 50 anos, como se recomenda habitualmente.

A incidência do câncer da próstata é muito alta em países escandinavos, intermediária no Brasil e nos Estados Unidos e baixa em países do extremo oriente. Estudos epidemiológicos mostraram que a doença é 10 vezes mais comum em norte-americanos do que em japoneses que residem no Japão. A frequência, contudo, se iguala quando os japoneses passam a residir nos Estados Unidos, indicando que são fatores ambientais ou dietéticos, e não a hereditariedade, os responsáveis pelo fenômeno. Diferenças no consumo de gordura animal talvez expliquem estas variações geográficas, já que a ingestão de alimentos com alto teor de gordura é elevada na escandinavia. Para confirmar esta suspeita, o grupo do doutor William Fair, de Nova York, realizou um experimento com camundongos portadores de câncer da próstata. Decorrido algum tempo, o volume do tumor foi três vezes maior nos animais que receberam dieta com 40% de gordura do que naqueles cujo teor de gordura era de 2,3%.

Diagnóstico do câncer

O câncer da próstata não produz sintomas nas fases iniciais. Com o decorrer do tempo podem surgir dificuldade para expelir a urina, jato urinário fraco ou aumento do número de micções. Estes sintomas são comuns nos casos de crescimento benigno, de modo que a presença deles não indica, necessariamente, a existência de câncer mas exige, no mínimo, uma avaliação médica.

Os homens sabem que o toque digital é importante para o diagnóstico do câncer da próstata. Nestes casos, a glândula torna-se irregular e de consistência endurecida. Um alegado preconceito cultural tenta explicar porque a maioria dos latinos resiste ao exame, mas todos os que já submeteram ao toque aceitam repetí-lo sem restrição. Em outras palavras, o problema talvez não seja cultural ou psicológico mas apenas o medo infundado de possível dor.

Além do toque, dois outros exames são utilizados para identificar o câncer: dosagens do antígeno prostático específico no sangue (conhecido como PSA) e o exame de ultrassom. O PSA é uma proteína produzida exclusivamente pela próstata, que se eleva de maneira significativa nos casos de câncer, mas também aumenta em pacientes com infecção ou com crescimento benigno exagerado da glândula. Por isto, elevações do PSA sempre exigem uma atenção médica mas não indicam necessariamente a presença de câncer na próstata. Como mostra a tabela anexa, conhecendo-se os níveis do PSA no sangue e o resultado do toque digital, pode-se calcular em cada homem o risco de existir câncer na próstata.

O exame de ultrassom feito através do ânus permite visualizar as chamadas áreas hipoecóicas dentro da próstata, típicas das lesões cancerosas. Este exame, falha em 60% a 70% dos pacientes, deixando de evidenciar tumores que estão presentes ou demonstrando áreas hipoecóicas que não são malignas. Por isto, o ultrassom é utilizado pelos urologistas em alguns casos de dúvida clínica e, principalmente, para orientar a realização de biópsias da próstata.

Levando em conta a relação custos/benefícios, definiu-se que a melhor forma de diagnosticar o câncer da próstata é representada pela combinação de toque digital e dosagem do PSA. O toque exclusivo falha em 30% a 40% dos casos, as medidas de PSA falham em 20%, mas a execução conjunta dos dois exames deixa de identificar o câncer em menos 5% dos pacientes.

Estudos sobre crescimento tumoral indicam que as formas agressivas do câncer da próstata, quando não tratadas, levam entre dois e oito anos para se ramificar pelo organismo, tornando a doença de difícil controle. Desta forma, um exame preventivo anual sempre identificará o tumor ainda dentro da próstata e potencialmente curável. Em homens sem antecedentes familiares, estes exames devem ser realizados à partir dos 50 anos.

Tratamento

Ao planejar o tratamento do câncer da próstata, os médicos levam principalmente em consideração a extensão da doença. Os tumores localizados inteiramente dentro da glândula, denominados estágio A ou B (figura), às vezes não precisam ser tratados, mas quando isto for necessário, pode-se recorrer à cirurgia, tecnicamente denominada prostatectomia radical, ou à radioterapia. Quando o câncer atinge os envoltórios da próstata, o chamado estágio C, costuma-se indicar tratamento radioterápico. Finalmente, quando o tumor se estende para outros órgãos, instalando outros focos de câncer denominados metástases, a doença é classificada como estágio D e é tratada com castração ou hormônios.

Uma observação aparentemente desconcertante foi feita recentemente, ganhando grande destaque na imprensa e gerando algum debate entre os médicos. Estudos realizados pelos doutores Willet Whitmore, de Nova York, Nelson George, de Manchester, na Inglaterra, Jan Adolfsson e Jan Johansson, de Karolinska, na Suécia, demonstraram que alguns pacientes acompanhados sem qualquer tratamento inicial tiveram a mesma sobrevida que outros submetidos à cirurgia radical ou à radioterapia. Em decorrência, estes autores chegaram a questionar a necessidade de tratamento dos pacientes com câncer da próstata.

Uma análise mais detalhada destes trabalhos revela que a maioria dos pacientes estudados tinha idade muito avançada e portavam tumores indolentes, sob forma de focos microscópicos. Esta lesões tendem a crescer lentamente, fazendo com que eventuais manifestações clínicas surjam somente após 8 ou 10 anos. Em outras palavras, estes tumores não chegavam a causar problemas simplesmente porque os seus portadores eram muito idosos e não viviam o suficiente para tanto. Além do mais, muitos destes casos tinham apresentado progressão do tumor e continuavam vivos apenas porque passaram a receber tratamento hormonal.

De qualquer forma, estes estudos tiveram o mérito de demonstrar que alguns homens com câncer da próstata, talvez 10% deles, não precisam ser tratados. Incluem-se aqui os pacientes que tem menos de 10 anos de perspectiva de vida pela frente, por serem muito idosos ou por apresentarem outras moléstias graves, que apresentam níveis de PSA baixo e que tem tumores de pouca agressividade, demonstrada pela biópsia. Nos demais casos, com doença de maior significado, deve-se realizar alguma forma de tratamento objetivo, que tanto pode ser a cirurgia radical, a radioterapia externa ou a terapêutica hormonal. Enfatizo que a opção do não-tratamento deve ser adotada com extrema responsabilidade, visto que, se o câncer for agressivo, poderá não haver tempo para arrependimentos. Por uma triste fatalidade, o doutor Whitmore, um dos proponentes do não-tratamento, morreu de câncer generalizado 4 anos após ter optado por não tratar uma pequena lesão identificada na sua próstata.

Cirurgia x Radioterapia

Uma grande controvérsia médica envolve o tratamento dos pacientes com câncer localizado da próstata. Cirurgiões e radioterapeutas proclamam que a cirurgia radical e a radioterapia externa, respectivamente, representam a maneira ideal de se tratar tais casos. Numa tentativa de esclarecer esta polêmica, a American Urological Association constituiu em 1994 um painel de especialistas incumbido de rever todos os estudos publicados à respeito na literatura médica. Foram encontrados 12.501 artigos que lidavam com o tratamento do câncer localizado da próstata, mas apenas 165 obedeciam aos critérios científicos que davam credibilidade aos seus resultados. A conclusão deste painel foi de que entre 89% e 93% dos pacientes submetidos à prostatectomia radical e entre 66% e 86% dos casos tratados com radioterapia externa estavam curados após 10 anos de acompanhamento. O painel deu importância à avaliação feita após 10 anos, porque com cinco anos quase 100% dos pacientes com câncer localizado da próstata estão vivos, qualquer que seja o tratamento aplicado (gráfico). Outra conclusão óbvia desta pesquisa: apenas 2% dos estudos científicos comparando cirurgia e radioterapia eram confiáveis. Em outras palavras, a quase totalidade das conclusões publicadas na literatura médica sobre o tema são inconsistentes e qualquer especialista, baseado nestes estudos, pode provar o que quiser. Sempre existirão trabalhos demonstrando que a cirurgia ou a radioterapia são extremamente eficientes ou, ao contrário, que não são dotadas de maior eficácia clínica.

Pedindo que se levasse em conta minha posição suspeita de cirurgião, gostaria de dizer porque me sinto incomodado com a radioterapia convencional. Existe, presentemente, um consenso de que a cura do câncer localizado da próstata só poderá ocorrer se os níveis de PSA no sangue caírem para valores abaixo de 1 após o tratamento. Enquanto este fenômeno é observado em 90% dos pacientes submetidos a prostatectomia radical, ele ocorre em apenas 40% dos casos tratados com radioterapia, segundo dados do doutor Gunar Zagars, radioterapeuta do renomado M.D. Anderson Cancer Center, de Houston. Em segundo lugar, a cirurgia pode curar pacientes que têm PSA inicial até 50, mas de acordo com estudos realizados por radioterapeutas da Filadélfia e de Boston, a radioterapia externa só age quando o PSA inicial é inferior a 15 ou 20. Um terceiro motivo de preocupação: entre 60% e 70% dos casos submetidos à tratamento radioterápico evidenciam focos cancerosos na próstata, quando a glândula é biopsiada após 2 anos do tratamento. Os radioterapeutas dizem que estas lesões são biologicamente inativas, de comportamento indolente. Pode ser que tenham razão, mas este fenômeno não deixa de ser desconfortável. Na minha concepção, obviamente tendenciosa, câncer indolente é aquele que está dentro de um balde com formol, não dentro do nosso organismo.

Finalmente, os próprios radioterapeutas estão começando a demonstrar algum desencanto pela radioterapia convencional. Estudo recentemente publicado pela Divisão de Radioterapia do Massachusetts General Hospital, de Boston, concluiu que a radioterapia externa cura menos de 40% dos casos de câncer localizado da próstata. Da mesma forma, uma análise tardia de 1355 pacientes tratados com radioterapia no M.D. Anderson Cancer Center concluiu que "a erradicação total e permanente do câncer da próstata com as doses convencionais de radioterapia externa, é muito mais difícil de ser obtida do que geralmente se divulga".

Talvez por estarem conscientes da menor eficiência da radioterapia convencional, os radioterapeutas tem explorado novas técnicas de irradicação da próstata, incluindo-se aqui a radioterapia conformada, a braquiterapia (aplicação de sementes radioativas de iodo ou de ouro na próstata) e a associação de radioterapia com tratamento hormonal. Os resultados precoces com estes métodos, após 3 ou 4 anos, têm sido favoráveis. Contudo, todos os pacientes com câncer localizado de próstata sobrevivem cinco anos, independente do tratamento realizado, de modo que é impossível afirmar, no momento, se estas técnicas são superiores à radioterapia convencional. Enquanto não surgirem avaliações com 10 anos de acompanhamento, estas três alternativas devem ser consideradas experimentais.

Argumentos desfavoráveis também existem em relação à cirurgia radical. Embora seu valor curativo seja inquestionável (gráfico), a prostatectomia radical pode provocar impotência sexual e incontinência urinária, ou seja, incapacidade para se conter a urina. A impotência, que se caracteriza por perda das erecções penianas, apesar do paciente poder atingir o orgasmo, surge em 95%quase todos os operados com mais de 70 anos de idade, em 50% a 60% dos indivíduos com 55 a 65 anos e em 15% a 20% dos pacientes com menos de 55 anos. Ressalte-se que os riscos de impotência diminuem significativamente quando o tumor é oculto, não palpável no toque digital e quando o cirurgião é experimentado. Incontinência urinária moderada ou grave surge em 20% a 40% dos pacientes submetidos à cirurgia em centros não-especializados mas acomete apenas 1% a 2% dos casos quando a intervenção é realizada por equipes habilitadas.

A radioterapia externa, divulgada como uma terapêutica menos agressiva que a cirurgia, também não é isenta de problemas. Entre 30% a 40% dos pacientes desenvolvem impotência sexual, que surge um ou dois anos após o tratamento e, por isto, nem sempre é atribuída à radioterapia. Além disto, 20% a 40% dos casos apresentam queimaduras no intestino grosso, ânus e bexiga durante o tratamento, que tendem a melhorar após alguns meses mas costumam produzir grande desconforto aos pacientes.

Independente de todas as incertezas que envolvem o tratamento do câncer localizado da próstata, nenhum especialista poderá orientar corretamente seus pacientes sem levar em conta os sentimentos dos mesmos. Numa pesquisa realizada em 1995 pela US TOO, entidade não-oficial de apoio aos portadores de câncer da próstata, perguntou-se a um grupo de pacientes o que eles mais esperavam do tratamento. Como resposta, 45% almejavam usufruir de boa qualidade de vida, 29% gostariam de prolongar o tempo de sobrevida e 13% desejavam retardar a evolução da doença. Por isto, médicos e pacientes, em decisão conjunta, devem optar pelo tratamento mais eficiente quando sobrevida for a questão mais relevante e escolher a terapêutica menos agressiva quando qualidade de vida for a principal preocupação do paciente.

Doença disseminada

Embora o prognóstico dos casos de tumor disseminado pelo organismo seja mais reservado, cerca de 35% destes pacientes permanecem vivos e bem após cinco anos, muitos sobrevivendo mais de 10 anos.

A existência de focos de tumor ou metástases em outros órgãos torna inútil a tentativa de se erradicar o tumor prostático inicial através de cirurgia ou de radioterapia. Como o crescimento das células malignas da próstata é estimulado pela testosterona (o hormônio masculino produzido pelos testículos), qualquer medida que reduza os níveis desta substância no sangue, faz retroceder o câncer, tanto a lesão inicial da próstata como os focos de metástases. Na prática, recorre-se à castração (extração de ambos os testículos) ou à administração de hormônios chamados anti-androgênicos, que antagonizam a testosterona. A eficiência clínica destas diversas alternativas é mais ou menos parecida, o que as diferenciam são os seus efeitos colaterais. O mais incômodo deles é a impotência sexual, que surge em quase todos os casos e é difícil de ser contornada, já que o paciente perde as erecções e, também, o desejo sexual. Recentemente foi descrita uma outra complicação relacionada com estas medicações: osteoporose generalizada, que aumenta de cinco vezes os riscos de fraturas ósseas espontâneas neste grupo de pacientes.

Com o passar do tempo, o tumor pode se tornar resistente ao tratamento hormonal e voltar a crescer. Isto resulta do aparecimento dos chamados "receptores promíscuos", proteínas localizadas no núcleo das células tumorais que passam a estimular seu crescimento mesmo na ausência de testosterona. Os urologistas tem tentado contornar este fenômeno fornecendo os hormônios anti-androgênicos de forma interrompida, bloqueando a glândula suprarenal, usando substâncias radioativas que vão se alojar nas células malignas ou administrando drogas anti-cancerígenas ligadas a hormônios femininos, que conduzem a droga tóxica especificamente para dentro das células prostáticas. Com estas medidas é possível reverter quadros de recrudescimento do tumor e melhorar a qualidade de vida destes pacientes.

Novos tratamentos

Algumas linhas de pesquisa em andamento talvez venham a revolucionar o tratamento do câncer de próstata nos próximos anos. Uma delas persegue o objetivo de inibir o aporte sanguíneo ao tumor, promovendo a morte de suas células por falta de alimento e oxigênio. Estudos pioneiros do doutor Judah Folkman, da Universidade de Harvard, demonstraram que as células cancerosas produzem proteínas, chamadas "angiogenéticas", que atraem vasos sanguíneos para o local. Esta etapa é essencial para o desenvolvimento do câncer, já que o mesmo não cresce se não receber nutrientes trazidos pela corrente sanguínea. Trabalhando nesta linha, a doutora Jaminska Vukanovic, do Johns Hopkins Cancer Center, de Baltimore, descobriu que uma carboxamida denominada linomide, bloqueia as proteínas angiogenéticas e diminui em cerca de 40% o fluxo sanguíneo para o tumor em ratos com câncer da próstata. É provável que este princípio terapêutico venha a ser usado em seres humanos proximamente.

Outra linha de pesquisa promissora é o da terapia genética. Estudos já citados demonstraram que as células normais produzem proteínas de vigilância, como a p53 e a p21, que promovem o suicídio das células quando elas apresentam degeneração maligna. Os gens que comandam a produção destas proteínas desaparecem nos pacientes com câncer da próstata, permitindo o crescimento descontrolado do tumor. Pesquisadores da Universidade de Baylor, em Houston, utilizando um vírus transportador, conseguiram introduzir na cadeia de DNA de células cancerosas da próstata, os gens que produzem as proteínas p53 e p21. Com esta manobra, conseguiram retardar o crescimento de tumores implantados em camundongos e aumentaram de forma significativa a sobrevida destes animais.

Outra modalidade de terapia genética bastante atraente vem sendo desenvolvida no Johns Hopkins Cancer Center, que recentemente iniciou os primeiros estudos em seres humanos. Células extraídas de tumores da próstata são inativadas e, em seguida, impregnadas por gens que produzem linfocinas, proteínas com capacidade de desencadear uma potente reação imunológica do organismo contra elementos malignos. Com isto se obtem uma vacina tumoral, que fornecida à indivíduos com câncer da próstata, produz uma reação específica que tende a destruir as células injetadas e o tumor prostático primitivo, formado por células semelhantes. Os resultados clínicos preliminares indicam que a terapia genética talvez venha a ter um papel relevante nos pacientes que permanecem com resíduos de tumor após o tratamento convencional.

Prevenção

A prevenção do câncer da próstata não pode ser feita de forma eficiente, no momento, porque ainda não são conhecidos os fatores que modificam a maquinaria celular, tornando-a maligna.

Hábitos dietéticos talvez possam reduzir os riscos de câncer da próstata. Neste sentido, tem-se recomendado alimentação com baixo teor de gordura animal, comum nos países onde a incidência da doença é baixa (apenas 15% do total de calorias sob forma de gordura). A ingestão abundante de tomate e seus derivados parece diminuir de 35% os riscos de câncer da próstata, segundo estudo realizado na Universidade de Harvard. O efeito benéfico do tomate resultaria da presença de grandes quantidades de lycopene, um b -caroteno natural precursor da vitamina A. Finalmente, complementação dietética com vitamina E (800 mg ao dia) e com selenium (200 µg ao dia) talvez tenha um efeito protetor contra o câncer da próstata, de acordo com dados do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, de Nova York.

Como a testosterona constitui um dos combustíveis que alimenta o câncer da próstata, é possível que o bloqueio parcial deste hormônio possa reduzir a incidência da doença. Com esta perspectiva, o National Cancer Institute, dos Estados Unidos, estabeleceu um projeto para explorar um eventual papel da finasterida na prevenção dos tumores malignos da próstata. Esta medicação bloqueia a enzima 5 a -redutase, responsável pela ação da testosterona na célula prostática e não interfere significativamente com a função sexual do paciente, comum quando se utilizam outros antagonistas da testosterona. Este projeto, que já se encontra em andamento, avaliará 18.000 homens norte-americanos, que estão sendo sorteados para receber, durante 7 anos, finasterida (5 mg ao dia) ou placebo (comprimido semelhante mas sem a droga). Todos estes indivíduos serão submetidos à biópsia prostática no final do estudo e, desta forma, será possível determinar se a inibição da testosterona pode prevenir o aparecimento do câncer da próstata.

 

De acordo com as previsões para 1997, no dia de hoje 625 brasileiros desenvolverão câncer da próstata e 78 morrerão pela doença. Divulgadas de forma emocional e incompleta, como tem acontecido, estatísticas como estas tem gerado dúvidas e temor exagerado. Aliás, como previa Noel Rosa na música Feitio de Oração: "Quem acha/ vive se perdendo". Estes mesmos números, lidos de outra forma, dizem que 547 brasileiros serão hoje curados do seu câncer da próstata. Notícia que pelo menos faz jus ao tremendo esforço que os médicos e a ciência médica realizam, em todo o mundo, para compreender e ajudar os portadores deste mal. E que também me estimula a escrever artigos como este. Até porque Noel Rosa recomendava: "Quem acha/ vive se perdendo/ por isto, agora/ eu vou me defendendo".

Sobrevida de pacientes com câncer da próstata
de acordo com o estágio da doença

Fonte: Srougi e Varaschin, 1997
Curva atuarial, 642 pacientes submetidos à prostatectomia radical.

Risco de câncer da próstata de acordo com os níveis de PSA
e com o resultado do toque digital

 

Níveis de
PSA no sangue

Risco de câncer

Toque Normal

Toque Anormal

    Desconhecido

10%

40%

    Menor que 4

3%

15%

    Entre 4 e 10

15%

60%

    Maior que 10

50%

95%

Classificação do câncer da próstata
pela extensão da doença

        Estágio A - Tumor oculto, não palpável ao toque
        Estágio B - Tumor dentro da próstata, palpável ao toque
        Estágio C - Tumor atingindo os envoltórios da próstata
        Estágio D - Tumor com focos em outros órgãos

Frequência com que se descobrem
os casos de câncer da próstata

 

Idade

Na autópsia

No exame clínico

50 - 59

11%

4%

60 - 69

24%

11%

70 - 79

32%

23%

mais de 80

44%

28%


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